21/01/2019

As palavras têm poder!


É comum ouvirmos que ‘as palavras têm poder’, mas nem sempre nos damos conta do que isso realmente significa. No entanto, entendemos muito bem quando recebemos de alguém (principalmente das pessoas mais próximas) um elogio, uma palavra de carinho ou ainda – e, geralmente, essas são as palavras que mais marcam – quando recebemos palavras duras, repreensões e desencorajamentos, que calam em nossa mente e ficam ali, dando voltas e tentando mostrar a todo momento que você é um fardo.

Bem, sentir na pele e na mente é fácil. Todos fazemos isso e sofremos com isso quando as palavras nos afetam. Mas e quando somos nós que estamos ferindo alguém com nossas palavras?

As vezes uma simples piada, uma brincadeirinha branca, um comentário ácido ou mesmo uma verdade dita de forma muito direta podem afetar o dia a dia, o comportamento e a vida de alguém.

Quase todas as pessoas guardam marcas de palavras que ouviam quando crianças, das ameaças para não mexer nas coisas alheias ou para agir de determinada maneira (que podem desencadear comportamentos oprimidos ou transgressores). Muitas dessas palavras não eram as mais gentis, ou as mais adequadas, para dirigir a uma criança. Por outro lado, muitas palavras ditas ainda na infância podem ter desencadeado em você uma coragem, uma vontade ou um incentivo para fazer alguma coisa...

Eu me recordo sempre das palavras e das atitudes da minha mãe sobre os estudos. Ela tanto me incentivava a estudar como me trazia, sempre que podia, livros, cadernos, papel, lápis, canetas e tudo o mais relacionado com a educação. Isso me encorajou! Me deu o incentivo que eu precisava para investir (aqui estou falando mais em investir tempo e dedicação) nos meus estudos. Hoje penso que se não fosse por essas palavras (e ações) na infância minha vida teria um rumo totalmente diferente. Não que isso seria ruim. Mas poderia não me deixar tão feliz como sou na profissão que escolhi.

Assim, pensar nas palavras ditas diariamente e nem sempre pensadas antes de dizer me faz questionar as minhas falas e as falas das pessoas ao meu redor. Encorajar alguém não custa nada, mas pode fazer toda a diferença na vida dessa pessoa. Assim como desencorajar também... E ambas as ações podem ser feitas por meio das palavras. 

Por isso pense, reflita e tenha certeza do que vai dizer para alguém. Você pode ajudar a construir vidas. E nunca é tarde para usar o dom da fala para coisas boas. Lembre-se: suas palavras têm poder!

16/01/2019

Perfil da Educação Superior Superior no Brasil

A realidade sobre as Instituições de Ensino Superior (IES) no Brasil vem mudando nos últimos anos. E estas mudanças acompanham, em grande parte, as mudanças da sociedade de um modo geral.

As IES surgiram no país - por volta do período de 1808 a 1827 - com uma proposta de atender às elites da época. No entanto, após décadas de adequações em suas estruturas, com o surgimento das universidades e com a ampliação dos cursos de graduação e pós-graduação ofertados pelas IES brasileiras, o acesso ao ensino superior foi facilitado e atualmente a forma de estudar também tem sido modificada.
Há alguns anos, a ideia de fazer uma faculdade estava estritamente atrelada ao ensino presencial e ao cumprimento de uma carga-horária semanal dentro das salas de aula. Esta realidade ainda é presente e muito forte dentro das IES, mas a Educação a Distância (EaD) vem conquistando espaço e ampliando cada vez mais o número de matrículas e o número de cursos ofertados.
De acordo com dados do Censo da Educação Superior (publicados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira - INEP), no ano de 2017 foram realizadas 8.286.663 de matrículas em cursos superiores. Destas, cerca de 1,8 milhão de matrículas foram realizadas por estudantes ingressaram em cursos na modalidade EaD, equivalendo a aproximadamente 21% do total de estudantes de cursos superiores do país, o que significa que 1 em cada 5 estudantes de graduação no Brasil estuda à distância.
Em comparação com o ano de 2016, o crescimento foi de cerca de 17% nas matrículas para a EaD, em contraposição do número de matrículas nos cursos presenciais, que teve uma leve queda de 0,4%. 
Estes números, que podem ser conferidos nas publicações do INEP neste link, indicam uma mudança no perfil da educação superior no Brasil, que passa a abranger cada vez mais um público que antes não tinha acesso ao ensino superior, seja por questões financeiras ou por falta de tempo, e que agora consegue concluir uma graduação e ampliar sua formação e suas possibilidades de emprego. Ainda, mostram que os números de cursos de graduação aumentaram significativamente, proporcionando novas oportunidades de formação. Outro dado relevante deste censo é com relação ao sexo dos estudantes. Em 2017, 4.719.482 matrículas foram realizadas por mulheres, enquanto 3.567.181 matrículas foram realizadas por homens, o que mostra que aproximadamente 57% da população de estudantes do ensino superior brasileiro é formada por mulheres.
Os cursos a distância geralmente são mais baratos que os cursos presenciais e possuem as mesmas características: carga horária compatível, disciplinas obrigatórias ao currículo do respectivo curso (em atendimento às Diretrizes Curriculares Nacionais - DCN - para os cursos de graduação ou aos dispostos no Catálogo Nacional de Cursos Superiores de Tecnologia - CNCST), atividades práticas, trabalhos de conclusão de curso (quando for o caso e em atendimento às DCNs e ao CNCST), atividades avaliativas e diploma. O diploma dos cursos a distância possui a mesma validade dos cursos presenciais e no seu texto não aparece a informação da modalidade do curso (EaD ou Presencial).
Neste sentido, em tempos de acesso facilitado à internet e otimização do tempo, um curso a distância pode ser uma boa oportunidade para aqueles e aquelas que pretendem cursar um curso superior, mas não possuem a disponibilidade de dedicar cinco dias da semana para os estudos presenciais. Isso não significa, no entanto, que fazer um curso a distância dispensa dedicação e tempo. Pelo contrário: estudar em casa requer muito mais disciplina, organização do tempo e dedicação, mas com a vantagem de que o tempo para os estudos será organizado pelo próprio aluno.

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O Censo da Educação Superior do ano de 2018 tem data prevista para divulgação de suas informações no dia 19/09/2019, conforme Portaria 945 de 26 de Outubro de 2018, disponível aqui.

29/10/2018

Profissões do Futuro: um mundo de possibilidades no ambiente virtual

Os tempos e as pessoas estão mudando! Novos comportamentos são vistos diariamente nas relações sociais, nas transações comerciais, no mundo do trabalho e dentre os profissionais que buscam se adaptar e inovar em meio a tantas transformações.
 
Muitas destas transformações, por sua vez, ocorrem em função da evolução das tecnologias da informação e comunicação (TICs) e da utilização da internet como um canal de comunicação e como uma plataforma de negócios, eventos que presenciamos diariamente ao utilizar nossas redes sociais, por exemplo, para ter acesso ao que acontece a nossa volta, quando compramos algum produto ou quando contratamos algum serviço por meio da internet.
 
Neste sentido, é perceptível a mobilização das empresas e de seus profissionais para acompanhar as mudanças, que passaram a ser a coisa mais constante na sociedade atual.
 
Acompanhando este movimento, algumas novas profissões vêm surgindo e já conquistando espaço no mercado para atender a diversas demandas criadas e que ainda vão surgir. Mesmo entre tantas distinções em termos de trabalho, uma coisa essas novas profissões têm em comum (e não é apenas a ligação com o mundo digital): todas demandam competências técnicas e comportamentais!  

Embora seja necessária a preparação técnica e o domínio de hard skills (como as habilidades e familiaridades com linguagem de programação, data analytics e big data, internet das coisas, domínio de softwares específicos, dentre outras), conhecer e entender o comportamento humano e ter habilidades relacionais, de comunicação, competência emocional, ética, flexibilidade, liderança, dentre outras habilidades (que compõem o que chamamos de soft skills) são elementos fundamentais para acompanhar as tendências e novas realidades.

Profissões do Futuro
 
Vemos que o ambiente virtual, ou ciberespaço, conquistou seu público e agora oferece inúmeras possibilidades, tanto no âmbito pessoal como profissional (para indivíduos e organizações). Hoje é possível (com os conhecimentos e habilidades técnicas e comportamentais certas), além de possuir um perfil digital no espaço virtual, realizar inúmeros processos de negócios nas mais diversas áreas. 

A matéria no link abaixo aponta algumas dessas novas profissões. Dentre elas podemos encontrar, dentre outras: 

  • Analistas de Big Data;
  • Creators/Influenciadores Digitais;
  • Assessores de creators;
  • Desenvolvedores de softwares;
  • Especialistas em Experiência de Usuário/Cliente;
  • Professores online;
  • Gestores de inovação;
  • Profissionais de segurança da informação.
 
São diversas outras profissões relacionadas com as áreas de TI, meio ambiente, saúde, e outras, portanto, opções não nos faltam! Mas como cada uma delas demanda competências específicas, buscar uma boa formação dentro das suas áreas de interesse pode ser o primeiro passo.
 
;)
 
 
 

15/10/2018

Paraíso Perdido (2018)

BR. | Direção: Monique Gardenberg.

Perdi a oportunidade de assistir 'Paraíso Perdido' no cinema, na metade do ano, mas ao ver o filme disponível no catálogo da Netflix corri para assistir.


Paraíso Perdido apresenta um drama familiar que se desenvolve em várias frentes: os ataques de homofobia sofridos por Imã (Jaloo), o dilema do aborto que assombra a vida de Celeste (Julia Konrad), os 20 anos na prisão da mãe de Imã, Eva (Hermila Guedes), a paixão de uma vida de Angelo (Júlio Andrade) e as tantas outras situações que fazem parte do dia a dia dessa família na boate Paraíso Perdido, onde todos os integrantes dessa família se apresentam em números recheados de emoção e saudosismo.

A trilha sonora, que reside entre o brega e o romântico, traz músicas de Roberto Carlos, Reginaldo Rossi, Odair José e outros. O som combina com o figurino e com os cenários, carregados de referências das décadas de 1970 e 1980.

A narrativa se constrói a partir da visão dos personagens, que vivem seus dramas e nos deixam aos poucos perceber a relação entre suas histórias.

Dentre os pontos altos do filme, a relação entre Imã, homossexual e drag queen que canta na boate, com seu avô - por quem foi criado - (José - interpretado por Erasmo Carlos) e seu tio Angelo é exemplo do amor e do respeito, assim como a união e cumplicidade entre Imã e Celeste. Angelo, por sua vez, carrega um ar de nostalgia de tempos que se foram e de um amor que não foi vivido. Eva, que passou 20 anos na prisão, ao receber a liberdade sofre pelo amor que viveu dentro da prisão e faz de tudo para ajudar sua amada Milene (Marjorie Estiano) a sair do cárcere.

Em meio a todas estas histórias, surge Odair (Lee Taylor), policial que presencia uma cena de violência contra Imã e é contratado para fazer sua segurança durante as noites de apresentação. Aos poucos Odair vai se envolvendo com cada um dos membros da família e nos permitindo perceber uma relação mais profunda do que uma relação comercial: um vínculo emocional e afetivo, que abrange todos os personagens.

O filme ainda conta com a atuação de Seu Jorge, que interpreta Teylor, aspirante a ator, cantor na boate e amigo íntimo da família. Teylor representa algumas das cenas mais reais dessa narrativa: em uma audição para um papel como ator, Teylor é questionado sobre ter experiência apenas como cantor, mas nada como ator. Ele responde: 

- "Atuei na vida, né?!, desde criança". 
O diretor questiona: - "Como é que é isso?". 
Teylor diz: - "Fingi de morto pra não levar tiro. Ri do que não devia pra não levar tiro. Já até me passei de jornalista pra não levar tiro".

Ao assistir essa cena não dá vontade de rir... pelo contrário. Dá vontade de chorar por ver uma realidade de milhares de pessoas sendo representada assim, de forma tão simples e tão brutal.

Outra reflexão, que vem no início do filme após um ataque homofóbico é proferida por Angelo para Imã: 

- "As pessoas não te odeiam pelo que você é, mas pelo que elas não conseguem ser".

Com essas e outras reflexões durante todo o filme, aos poucos vemos a felicidade que surge em meio ao caos, a violência e ao afeto, que se constrói e solidifica em todas as relações, mesmo nas que surgem de um ato de violência, como a relação entre Imã e Pedro (Humberto Carrão), que vive o dilema de se apaixonar por outro homem e não aceitar isso como natural, ao ponto de partir para a violência física como forma de evitar essa situação, que para ele era impensável.
 
E assim o filme segue: nostálgico, verdadeiro, forte, profundo. As pontas soltas só ficam soltas se você quiser, pois o filme oferece todas as respostas no enredo que apresenta. Algumas conexões são deixadas para que o espectador, o que proporciona diversas formas de envolvimento com a trama. 

Paraíso Perdido: um lugar para quem sabe amar é sobre espaços, orgulho e sobre cumplicidades. Mais que isso, Paraíso Perdido mostra uma família que se ama, se apóia e se defende. E para isso em nenhum momento se discute o que é ser família, o que é amor... O filme apenas é, assim como as relações no nosso dia a dia apenas são (ou deveriam ser)!

Recomendo!

27/06/2018

Sobre identidades, transitoriedades e pertencimento...

Viver em sociedade é uma arte e as vezes uma tarefa árdua. 

Pensar em como devemos nos portar em frente às pessoas, no ambiente profissional, junto aos amigos, entre os familiares, nas redes sociais virtuais [onde compartilhamos nossa persona] e em tantos outros círculos e momentos da nossa vida, não é nada fácil, pois precisamos entender quem somos, compreender que estamos sempre mudando (logo deixando de ser quem somos) e perceber a qual grupo pertencemos.

Por isso, agora, em meio a leituras e estudos - justamente sobre a vida em sociedade e sobre identidades - me senti muito estranho ao saber, por meio do facebook e seus mecanismos de mineração e utilização de dados (que eu mesmo divulgo por livre e espontânea vontade) que eu pertenço a 47 grupos.

47 grupos...

Gente, são tantos grupos... 47! 

E eu me perguntando ainda quem é que eu realmente sou...

Sou filho, sou companheiro, sou professor, sou ex-aluno, sou amigo, sou colega de trabalho, sou conhecido do açougue, sou cliente do posto de combustível, sou comprador compulsivo da Amazon.com.br e sou ainda tantas outras coisas que chego a não ser nenhuma delas.

A transitoriedade de comportamentos, posturas, hábitos, conhecimentos, pensamentos e tantos outros sentimentos me faz perceber que é difícil eu ser tudo isso. Mas também me faz perceber que isso tudo faz parte de quem eu sou. 

Complicado?? 

É para ser mesmo!

Sabemos que nosso ambiente social [nossos círculos de convívio (ou nossos grupos)] influencia quem somos enquanto seres sociais - e em alguns casos até determina muitas de nossas posturas. Mas sabemos também que nós influenciamos o ambiente a nossa volta a partir das posturas com as quais interagimos com as outras pessoas, sem contar o fato de que mudamos a todo momento.

E agora? Se a cada dia que passa somos um pouquinho diferentes, como podemos ser nós mesmos o tempo todo? 

Bem, não podemos! Por isso usamos uma persona nas redes sociais e agimos de determinadas formas em contextos específicos. Porque somos plurais. Somos muitos. E esses muitos ajudam a formar nossa identidade enquanto indivíduos em sociedade, dançando entre desejos e anseios individuais e necessidades e conveções coletivas que ditam normas de como devemos agir.

O pertencimento entra nesse meio termo, no equilíbrio das nossas vontades com as normas coletivas dos ambientes aos quais 'pertencemos'. Se for possível conciliar anseios individuais com normas de um grupo, as chances de sentir-se parte desse grupo são maiores... 

Mas o que eu fiquei pensando mesmo é sobre como equilibrar 47 grupos. Será que eu faço isso? Será mesmo que eu pertenço a esses 47 grupos? 

O facebook pode saber, porque eu até agora estou com a pulga atrás da orelha...

15/04/2018

Sete Anos e algumas poucas reflexões sobre o Tempo

O tempo é uma coisa muito engraçada... daquelas coisas engraçadas que ao mesmo tempo em que nos fazem rir nos tiram o chão. Mas isso não é algo ruim. Pelo contrário: é mais uma lição que o tempo - esse 'compositor de destinos', como já disse Caetano Veloso - nos proporciona.

Nos últimos meses, por exemplo, venho refletindo sobre o tempo... Sobre o meu tempo.

Passei os últimos sete anos envolto em atividades acadêmicas, mas sem deixar de lado (pelo menos tentei não deixar de lado) os prazeres e aventuras da vida. Foram sete anos repletos de momentos inenarráveis, de situações embaraçosas, de pessoas incríveis e de pessoas que passaram. Foram tempos de alegrias, de inseguranças, de descobertas e de encontros e desencontros. Vejo hoje que foram tempos de crescimento, pessoal e profissional.

Mas o que mais me chamou atenção foi o fato de eu não ter percebido, até pouco tempo atrás, que já se passaram Sete Anos desde que saí da minha cidade, do colo da minha mãe e me aventurei em terras estranhas (Curitiba é linda, mas é muito peculiar!). Tanta coisa aconteceu e tantas outras poderiam ter acontecido. E eu não percebi que o tempo passava!

Por outro lado, embora não tenha percebido eu vivi. Intensamente, com objetivos, com medos e com tudo o que a vida pôde me proporcionar: experiências, amigos, afetos... E isso vale muito mais que contar os anos, os meses, os dias e as horas. Isso vale uma vida!

O tempo, esse 'senhor tão bonito', me deu a oportunidade de crescer.

Costumamos falar que o tempo cura, mas hoje não vejo assim. Vejo que o tempo permite que nós mesmos possamos nos curar. O tempo não ensina, mas permite que nós mesmos possamos aprender com as experiências, com os erros, com os outros. Vejo ainda que o tempo nos dá todas as oportunidades, mas que nem sempre as percebemos, talvez por falta de maturidade, ou talvez por falta de tempo. Não sei se isso é bom ou ruim, mas sei que o tempo está por aí, passando, deixando marcas, compondo destinos.

Para mim esses sete anos passaram em um piscar de olhos. Quando os fechei eu era um e quando abri eu era vários. E isso eu devo ao tempo que passou e continua passando.

A nós, nesse meio tempo, cabe aproveitar cada segundo e viver da melhor forma possível, pois 'o tempo não para'. As experiências, a maturidade, a paciência (ou a falta dela) vêm com o tempo e a espera é o caminho pelo qual todos temos que passar. É preciso dar tempo ao tempo. O resto um dia vem!

Por hora fica aqui uma Oração ao Tempo!



23/11/2017

Judith Butler e (o imaginário da) a derrocada da família tradicional

Judith Butler é uma grande filósofa, pesquisadora, professora na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e reconhecida internacionalmente por seus trabalhos [muitos propondo reflexões e discussões sobre gênero], que tiveram recentemente um impacto estranhamente incomum em terras brasileiras...

Dias atrás (06/11/2017) assisti [graças às facilidades da internet e da vida moderna] a um pedaço da fala de Judith Butler, que estava no Brasil para algumas discussões na UNIFESP e no colóquio “Os fins da democracia”, realizado pelo SESC Pompeia (SP).
Judith Butler


Eu já havia visto alguns comentários sobre centenas de brasileiros que se opunham à vinda da filósofa americana para o Brasil. Mas eu confesso que fiquei terrivelmente assustado com o que vi na internet nos dias que antecederam e que sucederam as participações de Judith Butler nos eventos onde ela esteve presente.

- Primeiro: um grupo de mais de 300.000 pessoas assinaram um manifesto on-line para impedir a vinda de Butler ao Brasil.
- Segundo: um grupo de pessoas fazendo campanha on-line para que os usuários do facebook avaliem com a nota 1 (a mais baixa) a página do SESC POMPEIA na rede social para desqualificá-la em função de ter trazido ao Brasil a 'criadora da ideologia de gênero'.
- Terceiro e maior/pior: milhares de pessoas bradando asneiras na internet sobre ideologia de gênero (Oi?) e acusando Butler de trazer suas ideologias que destroem a família para nosso país.

Bem, a fala de Judith Butler, embora provavelmente permeada por vários assuntos - inclusive discussões relacionadas a gênero  e a teoria queer - dos quais ela domina, tem outro tema e finalidade, bem específicos: Democracia, ou melhor: os fins da democracia. 

No dia 06/11/2017 Butler conferiu uma palestra com o título 'Por uma convivência democrática radical: Israel, Palestina e a coabitação plural', na UNIFESP, junto com o lançamento do livro ‘Caminhos Divergentes: Judaicidade e Crítica do Sionismo’ (publicado pela editora Boitempo). Acompanhei parte das falas lá realizadas por ela e por outras pessoas [o vídeo completo pode ser assistido aqui...] e os temas discutidos versaram sobre democracia e os rumos da sociedade em um contexto antidemocrático.

Aí eu começo a me perguntar sobre a capacidade [ou incapacidade] de entender e interpretar o que se passa no nosso país. 

Para começar a gente já vê que a maioria das pessoas que bradavam contra a ‘vinda’ ou contra a ‘presença’ de Judith Butler no Brasil não sabem nem do que estão falando, quanto mais sabem do que a autora trata em seus trabalhos mais recentes e, em especial, nestas falas que são objetivo de sua visita ao país.

Mas o que mais me assusta [ultimamente eu ando tendo a sensação de que estou muito negativo em relação à sociedade] é ver as inúmeras manifestações de ódio e violência verbal e, posteriormente, no dia 10/11/2017, a violência física contra Butler e contra todas e todos aqueles que de alguma forma ‘defendem’ seu trabalho e seus direitos.

Em pleno século XXI é mais que necessário promover o debate sobre temas considerados tabus e tão desconhecidos pela sociedade. No entanto, tenho visto um movimento retrógrado em relação à tantas coisas que sinceramente não acredito que tenhamos, hoje, condições de promover diálogos construtivos no Brasil (e o pior é que eu imagino que essa não seja uma realidade apenas brasileira…).  Vejo que, de um modo geral, há um medo pairando sobre a sociedade [fortemente influenciado e fomentado por correntes conservadoras e de uma nova onda da extrema-direita política] sobre questões que são tão pessoais, mas que causam um grande alvoroço no imaginário social, sobretudo em questões relacionadas com o conceito de família.

Vemos discursos de ódio todos os dias voltados para todas e todos que não se enquadram nos moldes 'tradicionais' de família e nos padrões heteronormativos considerados por muitos o correto. As famílias que se configuram de maneiras diferentes e não-convencionais são marginalizadas e tidas como subversivas. E as pessoas que não se encaixam nos padrões heteronormativos [lésbicas, gays, bissexuais, travestis|transsexuais|transgêneros, queers e intersexos] são vistas como desvirtuadas, desavergonhadas, desajustadas, e por aí vai...

E esta parcela da sociedade que anda preocupada com a tal inversão de valores ganha força e viu, na vinda de Judith Butler ao Brasil, mais um provável cenário de guerra e de propagação do ódio e do medo que sentem... Butler foi, inclusive, queimada em praça pública, como se fazia com as bruxas séculos atrás [ou nem tantos séculos assim...], por ser a propagadora da ideologia de gênero [expressão utilizada por estes grupos ultraconservadores] e por trazer isso ao Brasil.

Eu, que não conheço os trabalhos de Judith Butler a fundo mas que os vejo como essenciais para propor discussões sobre gênero, sobre liberdades sexuais e sobre liberdades de direitos, percebo estas manifestações todas contrárias a qualquer pessoa ou situação que coloque em risco os pilares da família tradicional como atos de medo, violência e ignorância. Vejo que as liberdades que deveriam ser direito de todas e todos são hoje apresentadas como uma porta para a derrocada da família tradicional.

Por isso as discussões e reflexões sobre liberdade e direitos, liberdade sexual, gênero e democracia, embora tratadas com ódio e desconhecimento, são uma centelha de esperança em uma sociedade doente, amedrontada e que carece de informação. Por isso Judith Butler segue firme e acompanhada de pessoas ao redor do mundo que também desejam viver em uma sociedade livre de violência, democrática e justa.

A família tradicional não está ameaçada. Sempre teremos famílias formadas por homem + mulher + filhos/as. Mas há também espaço para aceitar a realidade das famílias que se configuram de maneiras diferentes, como homem + homem; homem + homem + filhos/as; mulher + mulher; mulher + mulher + filhos/as; avós + netos; tios + sobrinhos; mães solteiras; pais solteiros; e tantos outros tipos de família!

O que ameaça as famílias, em todas as suas configurações, é a falta de empatia, de amor, de respeito... O que ameaça as famílias é a crescente onda de ódio generalizado... O que ameaça as famílias é ensinar as crianças que quem é diferente está errado e merece ser hostilizado... O que ameaça as famílias é a ignorância, a falta de informação... O que ameaça as famílias é impedir que a informação e o conhecimento se propaguem... O que ameaça as famílias é exatamente o nosso próprio comportamento com relação aos outros! Judith Butler não traz perigo à sua forma de viver. Judith Butler oferece uma nova visão sobre os direitos individuais e coletivos dos grupos sociais que até hoje são marginalizados, condenados e violentados todos os dias. Dessa forma, se defender direitos iguais para homens e mulheres (gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros, etc...) é errado, estou errando e vou errar a vida toda!

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SUGESTÃO DE LEITURA

Texto originalmente publicado na Folha

Leia o texto completo aqui...

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