15/10/2018

Paraíso Perdido (2018)

BR. | Direção: Monique Gardenberg.

Perdi a oportunidade de assistir 'Paraíso Perdido' no cinema, na metade do ano, mas ao ver o filme disponível no catálogo da Netflix corri para assistir.


Paraíso Perdido apresenta um drama familiar que se desenvolve em várias frentes: os ataques de homofobia sofridos por Imã (Jaloo), o dilema do aborto que assombra a vida de Celeste (Julia Konrad), os 20 anos na prisão da mãe de Imã, Eva (Hermila Guedes), a paixão de uma vida de Angelo (Júlio Andrade) e as tantas outras situações que fazem parte do dia a dia dessa família na boate Paraíso Perdido, onde todos os integrantes dessa família se apresentam em números recheados de emoção e saudosismo.

A trilha sonora, que reside entre o brega e o romântico, traz músicas de Roberto Carlos, Reginaldo Rossi, Odair José e outros. O som combina com o figurino e com os cenários, carregados de referências das décadas de 1970 e 1980.

A narrativa se constrói a partir da visão dos personagens, que vivem seus dramas e nos deixam aos poucos perceber a relação entre suas histórias.

Dentre os pontos altos do filme, a relação entre Imã, homossexual e drag queen que canta na boate, com seu avô - por quem foi criado - (José - interpretado por Erasmo Carlos) e seu tio Angelo é exemplo do amor e do respeito, assim como a união e cumplicidade entre Imã e Celeste. Angelo, por sua vez, carrega um ar de nostalgia de tempos que se foram e de um amor que não foi vivido. Eva, que passou 20 anos na prisão, ao receber a liberdade sofre pelo amor que viveu dentro da prisão e faz de tudo para ajudar sua amada Milene (Marjorie Estiano) a sair do cárcere.

Em meio a todas estas histórias, surge Odair (Lee Taylor), policial que presencia uma cena de violência contra Imã e é contratado para fazer sua segurança durante as noites de apresentação. Aos poucos Odair vai se envolvendo com cada um dos membros da família e nos permitindo perceber uma relação mais profunda do que uma relação comercial: um vínculo emocional e afetivo, que abrange todos os personagens.

O filme ainda conta com a atuação de Seu Jorge, que interpreta Teylor, aspirante a ator, cantor na boate e amigo íntimo da família. Teylor representa algumas das cenas mais reais dessa narrativa: em uma audição para um papel como ator, Teylor é questionado sobre ter experiência apenas como cantor, mas nada como ator. Ele responde: 

- "Atuei na vida, né?!, desde criança". 
O diretor questiona: - "Como é que é isso?". 
Teylor diz: - "Fingi de morto pra não levar tiro. Ri do que não devia pra não levar tiro. Já até me passei de jornalista pra não levar tiro".

Ao assistir essa cena não dá vontade de rir... pelo contrário. Dá vontade de chorar por ver uma realidade de milhares de pessoas sendo representada assim, de forma tão simples e tão brutal.

Outra reflexão, que vem no início do filme após um ataque homofóbico é proferida por Angelo para Imã: 

- "As pessoas não te odeiam pelo que você é, mas pelo que elas não conseguem ser".

Com essas e outras reflexões durante todo o filme, aos poucos vemos a felicidade que surge em meio ao caos, a violência e ao afeto, que se constrói e solidifica em todas as relações, mesmo nas que surgem de um ato de violência, como a relação entre Imã e Pedro (Humberto Carrão), que vive o dilema de se apaixonar por outro homem e não aceitar isso como natural, ao ponto de partir para a violência física como forma de evitar essa situação, que para ele era impensável.
 
E assim o filme segue: nostálgico, verdadeiro, forte, profundo. As pontas soltas só ficam soltas se você quiser, pois o filme oferece todas as respostas no enredo que apresenta. Algumas conexões são deixadas para que o espectador, o que proporciona diversas formas de envolvimento com a trama. 

Paraíso Perdido: um lugar para quem sabe amar é sobre espaços, orgulho e sobre cumplicidades. Mais que isso, Paraíso Perdido mostra uma família que se ama, se apóia e se defende. E para isso em nenhum momento se discute o que é ser família, o que é amor... O filme apenas é, assim como as relações no nosso dia a dia apenas são (ou deveriam ser)!

Recomendo!
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